Entregas de imóveis crescem mesmo com crédito caro: o que esse dado realmente revela
As entregas de imóveis cresceram em 2025, mesmo com juros altos, mas esse dado não autoriza uma leitura simplista de mercado aquecido. O que os indicadores sugerem é um setor dividido em duas velocidades: o MCMV continua sustentando parte relevante da atividade, enquanto o médio e alto padrão sente mais o peso do crédito caro. Para corretores e imobiliárias, o recado é claro: a estratégia comercial precisa ser mais segmentada, mais consultiva e menos genérica. Quando se olha apenas para o número das entregas, a impressão inicial é positiva. E, de fato, há um componente de força operacional no resultado. A reportagem da Exame, com base nos indicadores Abrainc/Fipe, aponta que o volume de imóveis concluídos cresceu 13,7% em 2025 frente a 2024, em um ambiente ainda marcado por crédito mais restritivo. O mesmo material destaca também avanço dos lançamentos no período. Mas o dado das entregas, sozinho, não conta a história inteira. Em mercado imobiliário, é preciso separar o que é fruto de decisões tomadas no passado daquilo que depende da decisão de compra no presente. Entregar mais em 2025 diz muito sobre um pipeline robusto de obras iniciadas antes. Já vender no fim do ciclo depende de confiança, renda, aprovação de crédito e disposição do comprador para assumir financiamento em um ambiente caro. O próprio boletim econômico da Abrainc sobre o 4º trimestre de 2025 ressalta que as taxas de juros ainda em patamar elevado seguem como um dos principais pontos de atenção para o cresc
imento do crédito imobiliário. É por isso que a leitura mais útil não é “o mercado está bem” nem “o mercado travou”. A leitura certa é: o mercado está segmentado . No detalhamento público da Abrainc para janeiro a novembro de 2025, os lançamentos totais cresceram 31,4% e as vendas totais avançaram 2,2%. Só que, por trás da média, o retrato muda bastante: as vendas do MCMV subiram 8,7%, enquanto as do segmento de médio e alto padrão caíram 18,6%. No mesmo recorte, as entregas de novos imóveis do MCMV cresceram 21,9%. Esse contraste importa muito. Ele mostra que o setor não está respondendo de forma uniforme às mesmas condições macroeconômicas. O segmento econômico segue mais protegido porque opera com mecanismos de acesso ao crédito menos expostos ao custo do dinheiro de mercado, especialmente via FGTS. Já o comprador de médio e alto padrão é mais sensível à taxa de juros, ao custo mensal do financiamento e à previsibilidade da sua renda futura. Os dados do Indicador de Confiança do Setor Imobiliário Residencial, elaborado por Abrainc e Deloitte, reforçam esse descolamento. No 4º trimestre de 2025, o MCMV registrou alta de 2,5% no índice de procura e de 0,7% no índice de vendas. No MAP, os recuos foram de 23% em procura e 21% em vendas. O mesmo levantamento mostra que 97% dos executivos ligados ao MCMV pretendiam lançar ao menos um novo empreendimento nos 12 meses seguintes, e 94% planejavam adquirir terrenos. No MAP, mesmo com o ambiente mais cauteloso, 62% ainda indicavam in